O sangue descia o morro.
Somente a madrugada ouviu o pé de Lipe. Ele desceu a ladeira com passos largos e firmes, silenciosos e com aparente despretensão. Sabia da importância daquela noite, e teve certeza que estaria, ironicamente falando, um passo a frente de todos os outros.
Sentiu o rebuliço na praça, e como se aquilo fosse uma piada, soltara de sua boca uma gargalhada muda. Soube desde já que tudo correu bem, e teve a confirmação quando ouviu ao longe os fogos, seguidos de perto pela rajada de um fuzil.
O ruído das cápsulas contra o paralelepípedo, o corre corre pelos becos e vielas, grito dos falcões e soldados e o calar do vapor... Aos ouvidos de muitos soava como desespero, medo, toque de recolher, vingança, motivo para se embriagar na fumaça ou no pó. Mas para cabeleira não era mais do que a sinfonia da vitória, afinal ele estava acima daquilo tudo, e sabia que era necessário algum atrito para se alcançar a perfeição.
Enquanto esperava o toque final, relembrou de toda a sua obra.
Noite de Sexta Feira. Rogi brincava com sua pistola, sentado em sua cadeira, disfarçando mal sua preocupação e esperando que alguma coisa não acontecesse. Sua mente o nocauteava a todo o momento, questionava, esperneava, sobre aquele negro magrelo que não o deixava quieto. Pelo menos nos últimos três dias ele não tinha mais aparecido. E pensar que há alguns meses atrás rezava a quem quer que fosse para encontrar com aquele capoeirista fedido
Começou a conversar com ele mesmo, ou talvez com ninguém:
- Maldição, tempo que não passa. Vai ver essa merda desse relógio ta quebrado, ou o tempo foi sempre esse.
-Não chega a hora do meu sono chegar. Nunca pensei que ia preferir os pesadelos do que a realidade.
Com um sobressalto e o engatilhar da pistola, o inspetor reagiu a resposta de uma figura miúda e despojada que se postava confortavelmente na cadeira a sua frente:
- Co foi Rogi? Deu pra filosofar agora é? E outra, abaixa esse canhão aê, tu já meteu um tiro no meu peito antes, e viu que foi desperdício de tempo e de salário.
Os olhos de Rogi Salles pareciam saltar de seu rosto, talvez imitassem o coração em seu peito. O bombardeio ordenado de sua mente se tornou de repente um caos total. Muitas perguntas iam e vinham, mas a única que ele conseguiu ordenar e balbuciar naquele momento foi:
-Como você entrou aqui?
Erguendo-se da cadeira e ajeitando calmamente a camisa entre aberta na altura do tórax, Lipe Cabeleira falou por entre sorrisos irônicos e debochados:
-Na verdade ce deveria se preocupar é como o seu filho saiu de casa. Mas liga não, eu te conto. Fui eu que buzinei no ouvido dele com se abre aquela tranca fajuta com um poquinho de esforço e força.
Os olhos saltaram. Rogi empurrou Lipe com se este fosse um boneco, bateu a porta e deixou para trás uma gargalhada que só parecia ter sido ouvida por ele. Atravessou a recepção da delegacia, sem dar atenção as perguntas feitas pelo caminho.
Nervoso, demorou mais do que o comum para abrir a porta do carro, e saiu, tendo de aturar ao pé do ouvido uma voz debochada que teimava em fazer piadas:
-Vai tirar o pai da forca? Não né? Vai é tirar o filho da boca.
O sorriso que seguia essas declarações era inconfundível. Rogi olhava pelo retrovisor, e também para o banco do carona. Mas ninguém estava lá, talvez sua mente estivesse lhe pregando uma peça. Mas a traseira do ônibus que crescia a sua frente era bem real. E Rogi só teve tempo de defender seu rosto com os braços.