Espaco [di]Verso

Poemas, Versos, Criticas, Frases, Contos, Prosas e Muito Mais.

Domingo, Dezembro 10, 2006















Eu durmo.
Durmo pra esquecer a dor.
Durmo pra talvez esquecer quem sou.
Durmo pra ser outra pessoa em sonho, habitar paraísos desconhecidos e mundos encantados.
Durmo, simplesmente, para parar de viver, quando viver não basta.

"Às vezes é preciso deixar de existir... Porque ninguém consegue viver a vida toda."

Quarta-feira, Agosto 16, 2006

Caminhos

Se um dia me veres
E não me encontrar,
Saiba que sou eu o mesmo
Tentando me reinventar.

Na vida há caminhos,
Que se tentam disfarçar
E se passam por errados,
Só pra se complicar.

Num acaso hei de me desviar.
Procurar no mundo uma nova ventura,
Nos dias mais fracos e de menor fortuna.
Onde com o destino irei brincar.

Se um dia eu puder,
Farei alegria voltar
Porque esta me fez sofrer,
E agora preciso aliviar.

De tudo possível farei gozo,
Afortunar-me-ei até morrer,
E antes que tudo passe,
Poderão dizer:
“Eis a vida de um ditoso”

A razão da paixão

Volta a um inicio doloroso,
Como nunca desejado,
Cada vez mais ampliado
Pela falta da emoção.

Ah saudade da paixão!

Antes de tudo, quem ama não tem razão.
A razão é matemática, a paixão...
Ah a paixão é emoção.

Segunda-feira, Agosto 07, 2006

Quis eu viver o que sentia.
Fazer aquilo que ouvia.
Cuidar das coisas que fazia.

Eis aí minha mania:
Conjugar no imperfeito a vida,
Que eu queria viver perfeita...

Queria...

Quarta-feira, Julho 26, 2006

Rua da Lágrima

O sangue descia o morro.
Somente a madrugada ouviu o pé de Lipe. Ele desceu a ladeira com passos largos e firmes, silenciosos e com aparente despretensão. Sabia da importância daquela noite, e teve certeza que estaria, ironicamente falando, um passo a frente de todos os outros.
Sentiu o rebuliço na praça, e como se aquilo fosse uma piada, soltara de sua boca uma gargalhada muda. Soube desde já que tudo correu bem, e teve a confirmação quando ouviu ao longe os fogos, seguidos de perto pela rajada de um fuzil.
O ruído das cápsulas contra o paralelepípedo, o corre corre pelos becos e vielas, grito dos falcões e soldados e o calar do vapor... Aos ouvidos de muitos soava como desespero, medo, toque de recolher, vingança, motivo para se embriagar na fumaça ou no pó. Mas para cabeleira não era mais do que a sinfonia da vitória, afinal ele estava acima daquilo tudo, e sabia que era necessário algum atrito para se alcançar a perfeição.
Enquanto esperava o toque final, relembrou de toda a sua obra.
Noite de Sexta Feira. Rogi brincava com sua pistola, sentado em sua cadeira, disfarçando mal sua preocupação e esperando que alguma coisa não acontecesse. Sua mente o nocauteava a todo o momento, questionava, esperneava, sobre aquele negro magrelo que não o deixava quieto. Pelo menos nos últimos três dias ele não tinha mais aparecido. E pensar que há alguns meses atrás rezava a quem quer que fosse para encontrar com aquele capoeirista fedido
Começou a conversar com ele mesmo, ou talvez com ninguém:
- Maldição, tempo que não passa. Vai ver essa merda desse relógio ta quebrado, ou o tempo foi sempre esse.
-Não chega a hora do meu sono chegar. Nunca pensei que ia preferir os pesadelos do que a realidade.
Com um sobressalto e o engatilhar da pistola, o inspetor reagiu a resposta de uma figura miúda e despojada que se postava confortavelmente na cadeira a sua frente:
- Co foi Rogi? Deu pra filosofar agora é? E outra, abaixa esse canhão aê, tu já meteu um tiro no meu peito antes, e viu que foi desperdício de tempo e de salário.
Os olhos de Rogi Salles pareciam saltar de seu rosto, talvez imitassem o coração em seu peito. O bombardeio ordenado de sua mente se tornou de repente um caos total. Muitas perguntas iam e vinham, mas a única que ele conseguiu ordenar e balbuciar naquele momento foi:
-Como você entrou aqui?
Erguendo-se da cadeira e ajeitando calmamente a camisa entre aberta na altura do tórax, Lipe Cabeleira falou por entre sorrisos irônicos e debochados:
-Na verdade ce deveria se preocupar é como o seu filho saiu de casa. Mas liga não, eu te conto. Fui eu que buzinei no ouvido dele com se abre aquela tranca fajuta com um poquinho de esforço e força.
Os olhos saltaram. Rogi empurrou Lipe com se este fosse um boneco, bateu a porta e deixou para trás uma gargalhada que só parecia ter sido ouvida por ele. Atravessou a recepção da delegacia, sem dar atenção as perguntas feitas pelo caminho.
Nervoso, demorou mais do que o comum para abrir a porta do carro, e saiu, tendo de aturar ao pé do ouvido uma voz debochada que teimava em fazer piadas:
-Vai tirar o pai da forca? Não né? Vai é tirar o filho da boca.
O sorriso que seguia essas declarações era inconfundível. Rogi olhava pelo retrovisor, e também para o banco do carona. Mas ninguém estava lá, talvez sua mente estivesse lhe pregando uma peça. Mas a traseira do ônibus que crescia a sua frente era bem real. E Rogi só teve tempo de defender seu rosto com os braços.

Quarta-feira, Julho 19, 2006

Verbena

Do fulgor carbônico eu surjo
Sendo a alma daquilo que em cinza se acaba
Imortal e evasivo nada me abala
Como a ocasião invisível que fujo

Corro pelo ar como volúpia desgarrada
E pela superfície verde me introduzo
Ao estado que já fora então expulso
Reiniciando o ciclo daquilo que formava

(Felipe Mello)

Esse poema não é meu, mas como fico acordado que coisa boa era pra postar, ta ae....
esse eh bom!

Segunda-feira, Julho 10, 2006

Amor, Moral e Ética.

Na sociedade moderna do capitalismo pós-industrial, se instaurou uma nova lógica na subjetividade, e se engana quem pensa que esse fator se aplica apenas na economia ou na política, há mudanças também em questões onde os sentimentos se fizeram substituídos por conjuntos de capacitações do outro como serventia do beneficio próprio, que hoje condiz com a maneira saudável e verdadeira da arte de bem viver.

A “secessão sentimental” se tornou uma forma modal de busca da felicidade, um objetivo único, platônico, mal sucedido e principalmente antiético, substituindo o lugar dos sentimentos em comum por formas dominantes de instauração à tendência moderna de uma nova norma moral e, portanto, radicalmente oposta aos valores até então conhecidos ou seguidos pela sociedade, porque esqueceram que para viver o amor, é preciso compartilhar.

A fuga do amor por outrem constrói relações “canibalescas” e de posse, ou de consumo do homem pelo e para o homem, segregando valores em altos brados e com sensação de autonomia pessoal, afasta-se o “ser-covarde” da realidade e do conflito das vivencias interpessoais, alem de usar as relações como instrumento narcíseo de prazer.

A questão do sentimento como bem comum se torna realidade inacessível pra um valor de consumo cuja moral é presenciar no outro a relação do bem próprio ou disponível, e jamais como sujeito relacional e humano.

O equivoco maior da segregação relacional é construir muros e não ceder pontes de transições para a existência do amor. Anular um sentimento é acreditar que existir é bastar, e enquanto erotizam o amor como espécie de sentimento-deus, inabalável e digno de adoração através da poética e da arte, endurece-se de forma maligna na definição única do que é endeusar; Retirar o status original e levar à ruína da ilusão.

Deixar-se pulverizar pelo sentimento do amor em sua síntese, sem sombra de dúvida é considerada uma das patologias mais graves em termos sociais na modernidade, o que diverge de épocas mais saudosas e românticas nas quais sequer vivi, mas acredito ser, por demais, a liberdade do homem em se ter e se dar, fazendo disso uma conseqüência qualquer, de uma não programada ação.

O controle, a certeza e a segurança, no discurso de viver o amor pra “si”, são sem sombra de dúvida um modo confortável para a geração do desapego; Todo sentimento por pura essência é complexo por gerar movimentos intrínsecos e extrínsecos naturais, o que deturpa a lógica da rapidez nos gêneros maquinários, quase industriais, da nossa dita evolução humana na maneira de vivenciar as coisas.

O triunfo imaginário do amor individualizado constrói-se na fuga incessante da vivência, e na busca platônica de gozo como única forma de felicidade possível, uma estância da não aceitação do conflito como parte essencial de qualquer sentimento.

Toda a moderna organização da moral orienta o amar no sentido de instrumentalização objetal pela felicidade desgovernada da ilusão, a busca do amor apenas através do gozo torna-o fatalmente corriqueiro, e a procura da felicidade incessante converte o que era extremamente bom em martírio e escravização do homem em eterno sentimento de insatisfação, consigo e com o outro, e aqui o amor não morre, porque na verdade ele nunca existiu.

Sermão de um bufão em soneto

Alegre é aquele que vos declama
Por lidar com arte, não com lamina.
Contratado para contar historias enquanto,
Vocês se embebedam pelos seus prantos

Ah! Tudo o que faço é sorrir, sorrir!
Dos problemas que vocês fazem questão de parir.
Parem com isso tolos! Há mais o que fazer.
A intempérie consome vosso saber

Portanto, tratem logo de se apressar.
Larguem a futilidade, me demitam,
Racionalizem para que possam criar.

Pena que achem a mudança pecado
E com certeza por isso não entendem
Porque quero eu ficar desempregado

Sexta-feira, Julho 07, 2006

Na Noite Fria

Noite fria, e ardia,
Pobre terreno frágil do coração.
Na reunião das incertezas
Colocaste tua paixão?

Sussurro único
Onde resposta não há.
Ecoas em meus ouvidos
Só pra me perturbar?

Jura me sufocar no teu ar,
E me deixa dormir,
E me deixa sonhar.

E se quando acordar,
Não estiveres lá.
Então fecho meus olhos,
E me deixo apagar.

Você vem num sonho,
No meu caminhar,
Você vem depressa,
Pra me encontrar.